CASA DE FERREIRO, ESPETO DE PAU

entenda por que a área que mais se beneficia da complexidade é justamente a que mais a despreza

3/17/20265 min read

Sim, até a complexidade pode ser desvirtuada de seu propósito sob um viés reducionista. E isso ocorre, contraditoriamente, em uma das áreas que mais a utilizam. Mesmo que algumas vezes nem se deem conta de suas bases teóricas e de sua extrema ligação com a coisa natural.

Ao longo da obra "Desatando Nós" discutimos e traçamos uma relação entre o histórico do pensamento complexo com algumas das possibilidades de aplicação para a gestão organizacional, em especial, demonstrando como uma organização e sua liderança podem evoluir para se tornarem regenerativas ao adotar tais princípios.

Há uma área em especial que, surgida na tentativa de transformar o pensamento humano em equações matemáticas, tem conseguido desenvolver técnicas que traduzem para a prática muitos de seus princípios, mesmo os mais subjetivos e de difícil entendimento. Esta transformação, no entanto, tem contribuído com sua desvirtualização sistêmica.

UMA ÁREA INGRATA

Esta área em especial é uma das que mais causam impacto em nossa atual sociedade, pois, o fruto de seu trabalho está remodelando a forma com a qual nos relacionamos, criamos e gerenciamos tanto o conhecimento, quanto as diversas formas de trabalho associadas a ele, não importa a área ou disciplina.

A partir dessa instrumentalização, soluções antes impensadas ou imaginadas apenas através de frutos imagéticos típico de filmes e séries de ficção científica, nossa sociedade está enfrentando e enfrentará dilemas típicos dos problemas tidos como complexos.

Raros são e serão os impactos advindos desta área que poderão ser compreendidos sem uma observação multidimensional e global, reforçando ainda mais que o loop causal destes impactos se revela como um típico axioma ao reforçar ainda mais a importância do pensar complexo para nossa sociedade.

Sim, a área de TI é uma das que mais bebem das bases fundamentais da complexidade, se não for a que mais o faz. Seu surgimento e evolução considera e inclui a complexidade em TODOS os seus aspectos, até mesmo aqueles cujo mecanicismo é aparentemente mais proeminente.

A engenharia de máquinas, a aprendizagem profunda, a big data e a mineração de dados, bem como a inteligência artificial e a computação quântica, por exemplo, só se tornaram possíveis através do desenvolvimento de técnicas avançadas de linguagem matemática e de programação que permitissem incluir na seara destas subdivisões os princípios fundamentais da aprendizagem sistêmica, das perturbações de fronteira, dos loops causais, da recursão, do caos, das redes interativas, da dialética e demais conceitos atrelados a teoria da complexidade. Portanto, não se trata de uma hipérbole afirmar que a TI hoje é complexa nas entranhas.

Mas nem tudo são flores, pois, justo a área que mais a utiliza é a que mais se afasta de sua essência. Como diria o velho ditado, em casa de ferreiro, o espeto é de pau.

DE ONDE VEIO...

A complexidade, surgida a partir da necessidade de compreensão mais orgânica sobre a vida, hoje se apresenta como uma disciplina prática e técnica que a ignora quase por completo. Facilmente isso se explica a partir da própria complexidade, uma vez que a dialética inerente ao seu entendimento, ou seja, ao conflito e a contradição típicas de sua própria constituição é uma das características que mais se faz presente.

Isso não é necessariamente um problema, pois revela uma dicotomia surgida somente em meados de 1848 com a revolução francesa. Se buscarmos na história, veremos que a filosofia platônica não fazia qualquer distinção entre teoria e prática. Portanto, não é desconexa da realidade a afirmação de que a instrumentalização da complexidade realizada pela TI reforça a reflexão teórica deste saber. Um não existe sem o outro. Este distanciamento nada mais é que um reflexo do positivismo que separou, ou tentou separar, corpo e mente como reflexo da separação entre religião e ciência. O objetivo era nos livrar do julgo dogmático da religião, mas em contrapartida, nos livrou também da essência do que nos faz humanos (nossa imperfeição, nossas contradições, nossas interações).

A única crítica que se faz se justifica pelas obras de Morin, o pai da complexidade moderna. Este incrível pensador nos informa que a hiperespecialização, necessária a essa transmutação da teoria em prática, alienia o sujeito da reflexão crítica de seu próprio trabalho. Portanto, há que se manter ativa a preocupação e a consciência dentre os atuantes da TI dos princípios associados a vida que não só enriquecem, mas que unificam as bases constitutivas de seu trabalho a consciência da vida, sob risco de se perder o viés humanitarista e biológico inerente a complexidade.

Não à toa, os avanços das pesquisas e a robustez dos algoritmos que sustentam os mais avançados sistemas de inteligência artificial hoje são capazes de substituir muitas das habilidades humanas, mesmo que ainda restritas a um determinado conjunto ou aspecto. E em breve, bem próximo, essa mecanização dará cabo de todo e qualquer trabalho humano, aproximando-nos cada vez mais das realidades utópicas, e por que não, distópicas referenciadas no imagético dos filmes e séries de ficção já mencionados.

CRIATURA OU CRIADOR?

Por fim, o que diferenciará criador e criatura quando observado os princípios propostos por Taylor e demais autores que associam a cognição a capacidade do ser de “conscientemente” trocar informações com o meio em prol de sua auto-organização?

Ou, que tipo de estrutura será construída quando se observa que componentes biológicos e mecânicos estão em interação contínua a exemplo da bateria movida a hemoglobina, desenvolvida na Universidade de Córdoba por Valentín Caballero e colegas, ou da pesquisa desenvolvida por Xhenan Bao de Stanford que desenvolve sensores que utilizam nanotubos para monitorar nosso corpo em tempo real, ou das macromoléculas desenvolvidas por IA pelo Institute for Protein Design da Universidade de Washington?

Que capacidade de processamento das ditas inteligências artificiais alcançarão quando seus algoritmos desenvolvidos e autorreferenciados com base em redes neurais de nosso cérebro apresentarem a capacidade de refletir para além das limitações de sua programação base?

Em tempos cuja fronteira se torna cada vez mais difusa entre o artificial e o natural, será preciso um novo olhar sobre o que separa criador e criatura. Talvez um novo tipo de complexidade surja, uma que abarque esse novo patamar ao ignorar distinções entre produto e produtor. Nesse momento, a área que mais bebe e se afasta da complexidade se remodele e se renomeie, posto que o termo “informação” já não seja capaz de traduzir a amplitude espiritual fruto de seu trabalho.

REFERÊNCIAS:

BERNSTEIN, R. Praxis and action: contemporary philosophies of human activity. Pittsburgh: University of Pennsylvania Press, 1971.

CONDORCET, Jean-Antoine. Esquisse d’un tableau historique desprogrès de l’esprit humain. Paris: Garnier-Flamarion, 1988.

MERLEAU-PONTY, M. As aventuras da dialética. São Paulo: Martins Fontes, 2006. (col. Tópicos).

MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. 5. ed. Porto Alegre: Sulina, 2015

SITE INOVAÇÃO TECNOLÓGICA. Biobateria gera eletricidade usando hemoglobina e oxigênio do ar. 15/01/2024. Online. Disponível em www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=biobateria-gera-eletricidade-usando-hemoglobina-oxigenio-ar. Capturado em 02/02/2024.